Fernando Assis Pacheco, R., 1992, "Respiração assistida"
Le Roman de la rose - The Garden of Pleasure (e-card da British Library)
Um blog com seriedades, muitas banalidades, algumas frivolidades,pechisbeque, chá e torradas. Que me diverte.


Descobri há pouco tempo que não conhecia as manhãs. Para as manhãs, nunca estou. Vou, regresso, corro, já com a luz posta, com a cidade em movimento em edíficios fechados. Quando as ruas se esvaziam e cada um toma o seu lugar, a manhã enche-se dos seus habitantes, gente com quem não me cruzo nas manhãs dos meus dias a néon e ar condicionado, que toma o espaço que os outros libertam, com um ritmo mais lento, com passo menos seguro e com mais tempo. São os idosos, os reformados nos correios com as notas, as facturas e as pensões, os casais nos bancos à procura de uma vida em casas sonhadas, as mulheres e os homens com impressos, sisas, obrigações, fichas de chamada nas finanças, uma geração de mulheres sem impostos e sem rendimentos, de alcofa e porta-moedas que percorre o mercado, ao peixe, à carne que há-de ter pronta à noite para os seus.



Daniel Barenboim - Moonlight sonata - 1ºmov Adagio sostenuto
Beethoven - Sonata No. 14 C sharp minor Op. 27 No. 2

Entretanto, no Vida Breve, um dos meus blogs preferidos, vive-se assim:"Nos documentários que têm passado recentemente nas televisões sobre os países de leste durante a Cortina de Ferro, antigas estrelas pop, fotógrafos, humoristas e escritores da antiga República Socialista da Checoslováquia descreveram a mentira e a hipocrisia em que todos pareciam estar envolvidos e explicaram como a retórica comunista, envolta em propaganda, era tão diferente da realidade.
Durante a Primavera de Praga, uma cidadã é acordada pela mãe: "Marta, fomos invadidos". "Mas invadidos por quem? Os americanos já cá estão. Porque querem invadir-nos?" Foi assim o começo da Operação Danúbio e do processo de normalização, em que o suicído de Jan Palach (imolado pelo fogo) viria a ser um símbolo da luta contra a repressão. As imagens de Václav Havel vigiado na sua própria casa deveriam transmitir alguma coisa, e que uma revolução, mesmo de veludo, implicou uma coragem mal silenciada de lutadores antigos.
Da Roménia de Ceauşescu vimos imagens da destruição da cidade antiga para que o ditador pudesse realizar o seu megalómano Palácio do Parlamento, os relatos da inúmeras mortes de operários durante a sua construção, a paranóia de trazer gente dos campos para as cidades, desenraizando-as das suas origens e enfiando-as em casas absolutamente miseráveis, com escassez de alimentos e torturados pelas baixas temperaturas.E quando já nada havia para comer, visto que todos os bens alimentares eram exportados, sobravam os pés de porco, verdadeiros patriotas que não saíam do país.
As derradeiras imagens deste casal de ditadores, repetidas vezes sem fim, mostravam uma Elena Ceauşescu (com mau cheiro, nas palavras do guarda) que gritava "Criei-vos como uma mãe". Bem vi, e nunca me hei-de esquecer, dos "seus filhos" deficientes abandonados como animais em instituições inqualificáveis.
É por isso que não percebo quando os ouço defender um regime apascentado por esta gente canalha.
Good Bye, Lenin!
Era de noite e fazia frio, em 9 de Novembro de 1989. As imagens dos documentários mostram mares de gente a atravessar uma estreita fronteira física entre duas cidades que os homens dividiram para separar homens e ideologias. Era também à noite que se ouviam tiros junto ao muro que derrubavam quem o ousava passar.
Era de noite quando milhares de berlinenses de leste sairam à rua depois de ouvirem, incrédulos, a informação saída do bolso de um dirigente confuso numa conferência de imprensa atabalhoada. As imagens que temos desses momentos não nos deviam deixar indiferentes e, por isso, tenho pena que os mais novos as troquem por patetices modernas em horário nobre. Se tivessem perguntado quem era aquela gente vestida de forma antiquada, saloia, pobre, em carros de plástico, ter-lhes-iam dito que houve tempos em que uma cortina de ferro dividia uma Europa que eles agora atravessam livremente.
Quando visitei Berlim pela segunda vez após a queda do muro, estive no Cafe Sybille na austera Karl Marx Allee, à espera de encontrar alguma coisa de um tempo perdido, cuja memorabilia se vende agora na rua a turistas e colecionadores. Pareceu-me que o ar do tempo também já tinha passado por ali, como um modesto café da minha província, à espera do camartelo. Dizem-me que o Café Adler junto ao Checkpoint Charlie já fechou e pertence actualmente a uma rede local de cafés. Agora, só a sua memória nos livros, filmes e nas histórias de espionagem.
Por isto tudo, coisas minhas, recordei as caricatas cenas do filme "Goodbye Lenin" com a improvisação patética de um telejornal a incensar Erich Honecker, a estátua do Lenin a ser retirada, e o anúncio da Ikea nos cartazes da cidade. Foi também o começo de uma história de amor em tempos de liberdade, mas isso agora não importa nada.
When You are Old
WHEN you are old and gray and full of sleep
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true;
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face.
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how love fled
And paced upon the mountains overhead,
And hid his face amid a crowd of stars.
William Butler Yeats
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Neste mês de Novembro, cheio de sombras no nosso calendário dos afectos, e em particular neste dia, um poema a quem não vimos envelhecer. A saudade que temos deles e a falta que nos fazem.
Je suis perdue from JMC on Vimeo.
JE SUIS PERDUE
por Gigi Gaston - video de Jean-Luc Godard
Do Almocreve das Petas
Obrigada

“Memoriais de Beira de Estrada”- Valter Vinagre
Vasculhei a gaveta e nada: instrumento para descacar batatas, ralar o queijo, espremer o alho, o limão, tirar o meio do ananaz, descaroçar ginjas e há mesmo quem tenha alguém que lhe tire as grainhas das uvas. Não falo sequer de uma geringonça para descascar as castanhas ou as romãs, que isso seria pedir muito, mas não encontro nada apropriado para dar, nas castanhas, o corte necessário antes de irem para a panela ou para o forno.(Sérgio Godinho - Com Um Brilhozinho Nos Olhos)
Não se lhe conhecia um namorado, uma paixão, um devaneio ou um desvario. Via-a sempre com a roupa entre o clássico e o antiquado. Os sapatos com o modelo de sempre, tacão médio e o cabelo com um corte que valha-nos Deus. Sempre que viajei no carro dela, encontrava sempre os mesmos cds, o Eros Ramazzotti e o Alejandro Sanz, mas curiosamente nunca lhe detectei ponta de nostalgia romântica. Como mulher de hábitos, acostumei-me a vê-la comer uma fatia de tarte de maçã com duas bolas de gelado e um chá com dois pacotes de açucar. Sempre achei aquilo um exagero, mas ela ia sorrindo à medida que ia saboreando e também por isso a admirava.
Porém, naquela tarde, achei-a diferente. Não sei se seria pelo camiseiro um nadinha mais desapertado, se pelo olhar. A verdade é que estava diferente. Quando pediu unicamente uma tarte sem gelado nem scones achei curioso, mas quando não colocou sequer um grão de açucar no chá, pensei que ali havia caso.
Tocou o telefone e não pude deixar de ficar atenta. Atendeu e pelo olhar e pelo sorriso, percebia-se que não se tratava das habituais chamadas da mãe ou da irmãs. Ia balbuciando umas palavras curtas, mais trejeitos que sons. Fingindo-me destraída, prestei atenção às despedidas, que sempre achei matéria interessante:
"Ás oito horas está óptimo. Na tua casa ou na minha?"
Goethe Garten- Weimar
NEIL DIAMOND - Mr.Bojangles
Do filme "O solista", do qual retirava, sem pestanejar, meia hora de cenas maçadoras.

Disse-me a A.C., uma elegante estudiosa de manuscritos e da Harpers Bazaar, quando regressou de NY: "No Central Park, a olhar para Upper East Side em direcção aos prédios na 5ª Av."
Exposition “Picasso et les maîtres” (Grand Palais)-Out. 2008
Montmartre
Montmartre-1º atelier de Picasso
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Não sei se a série seria I Remember Nelson (1982)





Desfile Nuno Gama 


(Desfile)
Só uma ou duas notas antes de ir ver miúdas giras e rapazes vestidos para o Verão.
Provavelmente os artistas estão fora do alcance da lei, mas não consigo entender o apoio de realizadoares e actores contra a detenção de Roman Polanski. O homem que se apresente na Justiça e resolva o problema uma vez por todas, em vez de andar a fugir há um ror de anos. Julgo até que a jovem que ele molestou já retirou a queixa contra ele, mas lei é lei, para os artistas também.
A propósito deste desvario, vale a pena ler o caro Jansenista e a Rititi.
O Presidente Obama nunca foi santo da minha devoção, mas parece que tem uma grande tropa de fiéis que o acharam merecedor de ganhar um prémio em doze dias. Como escreve o JCD "Qualquer dia, o Nobel sai como brinde no Chocapic."
É boa altura para recordar o velhinho Archie Bunker, num tempo em que o politicamente correcto ainda não tinha chegado.

A melhor coisa para passar os tolinhos dias de reflexão é sair do local do local onde vamos votar. Devíamos ir reflectir para fora das nossas cidades, aldeias, vilas e até mesmo para fora do país, aproveitando um dos mais fantásticos benefícios da modernidade, os vôos low cost.À semelhança de sessões anteriores, terei o maior gosto em estar presente em mais uma Moda Lisboa, podendo ser facilmente reconhecida pelo template amarelo.
Agradeço de novo à organização a simpatia e lá estarei para ver as meninas e os meninos vestidos para o Verão 2010. Mini-saias, vestidinhos, roupas frescas e copos de champagne, brevemente neste blog.
de notáveis. Pois é com muito gosto que dou os parabéns ao Barão Theodor von und zu Gutemberg, Ministro da Finanças da Sra Merkel.



Quase os ouvimos respirar atrás de nós de tão perto que se encontram. Fico possessa quando os sinto, os vejo e quase lhes ouço a respiração, praticamente colados a nós nas caixas, nos bancos, nos consultórios médicos, quer haja uma conversa banal ou alguma troca de informação pessoal entre nós e o nosso interlocutor. Há mesmo quem apoie os braços e o corpo nos balcões onde estamos a tratar das nossas vidas, gente que nos quer fazer companhia nas alegrias e nas chatices, assim nos débitos como nos créditos.


Já se sente outro sol. São assim os finais de Agosto, fim de férias, outro aniversário, outra luz de fim de dia, já mais curto e sisudo como os tempos que aí vêm.
Suponho que seja já uma prática com algum tempo, as férias com pulseiras de plástico, pois vejo-as um pouco por todo o lado onde haja um resort (para rico ou remediado) ou um clube de férias e em diversas cores. Confesso a minha ignorância nesta matéria, pois dinheiro de plástico só mesmo os cartões, e mesmo assim, usados com moderação.
A ideia pode ser muito moderna e prática, mas não me convence. A verdade é que andam por aí, com os recuerdos nos pulsos. Haja alegria e pulseiras para trocos.
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Estou assim de volta à super ocupação das beiras de estrada, onde germinam as vendas de atoalhados, bares manhosos, publicidade caótica, restaurantes com néons, carros nas curvas ou nas ciclovias e aos clássicos contentores do lixo. Não há quem tenha mão nisto. É assim o espaço público nacional: sempre mais cheio, mais alto e mais feio.

